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joão cb gonçalves

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Sânscrito:
preliminares

São Paulo - de 2010.



O Sânscrito

Conhecemos a Índia antiga graças, em grande parte, à língua sânscrita. Há um conjunto numeroso de textos registrados nessa língua, com obras editadas, traduzidas e difundidas em muitos países; além disso, há também milhares de manuscritos ainda desconhecidos, arquivados em bibliotecas, apenas catalogados ou mantidos sob a guarda de famílias que os transmitem geração após geração.
Além de ser uma língua em que foram compostas obras fundamentais da civilização indiana, o sânscrito é um símbolo cultural agregador e assimilador, que possibilita uma compreensão dos princípios que participam da origem, consolidação e permanência da tradição milenar da Índia. Trata-se de uma língua que serviu de convenção para a propagação de saberes dos mais diversos tipos, e, devido a possuir enorme prestígio, estimulou a composição abundante de textos, o registro de diversas áreas de conhecimento e a sua grande disseminação e transmissão.
Sabe-se da diversidade étnica e social da Índia, dos muitos dos grupos que a habitam há milênios e de algumas das relações de influência estabelecidas entre eles. É nesse sentido que o sânscrito, além de ser uma língua, é uma instituição cultural, que foi capaz de modelar e fazer convergir para sua literatura uma vasta gama de conhecimento que floresceu no solo indiano. Muitos dos saberes que foram gerados em espaços regionais, associados às línguas locais, foram registrados na língua sânscrita. Ao serem registrados nessa língua, foram assimilados por uma cultura que se convencionou chamar de cultura sânscrita, transmitida e alimentada, ao longo de gerações, por pessoas que mantiveram seu estudo – como primeira ou segunda língua – em vários níveis, dos mais utilitaristas às esferas mais elevadas da erudição.
Aí reside um paradoxo: ao mesmo tempo em que a literatura sânscrita traz uma pluralidade de conhecimentos, ela registra esses conhecimentos segundo valores que são próprios a ela e externos às comunidades que os produziram, assimilando-os segundo seus princípios. Tais princípios estão relacionados predominantemente à ideologia bramânica, relativa ao grupo considerado, segundo a tipologia dos varṇa (termo que é freqüentemente em português como casta), como hierarquicamente superior aos outros.
É em razão de seu poder de assimilação que a literatura sânscrita reflete um repertório de mais de três mil anos, capaz de abranger um vasto leque de atividades humanas, mas que, de certa forma, não reflete a pluralidade do pensamento e dos vários estratos que compõem a civilização indiana. Reflete o pensamento daqueles que mantinham o sânscrito como língua de cultura e que, por razões históricas, puderam transmitir sua literatura ao longo de tantos séculos. Isso quer dizer que há muitas formas de pensamento, ritual, mística, arte, literatura, música que, sendo provenientes de comunidades falantes de outras línguas, foram incorporados pela literatura sânscrita, mas somente segundo os modelos cultivados por quem os registrou.
Nesse sentido, a cultura sânscrita é um caleidoscópio que mostra as peças organizadas segundo a sua geometria, isto é, segundo seu modelo de interpretação do mundo. Em outras palavras, as obras hoje conhecidas refletem um pensamento característico da maneira como seus escritores/compositores (literatura escrita ou oral) concebiam, ou achavam que deviam conceber, seu universo de atuação.
Isso não quer dizer que haja homogeneidade absoluta nessa tradição; pelo contrário, as classificações que se pretendem estáveis tendem a ser falhas quando tratam de literatura. Mas há tendências a serem observadas: nos períodos mais antigos, há vínculos mais estreitos com o pensamento bramânico e, em períodos mais recentes, os vínculos são mais frouxos, mas não deixam de existir. Dessa forma, a gradação terá, em tese, duas extremidades: com os Vedas, no pólo mais antigo, de pensamento bramânico e, no pólo mais recente, os tratados tântricos, distanciados das concepções bramânicas.
Quanto a sua origem, considera-se o sânscrito como uma língua pertencente à família das línguas indo-européias, das quais o grego e o latim representam as antigas mais conhecidas. A maioria das línguas européias também pertence a essa família, incluindo o português, o espanhol, o francês e o italiano, que são algumas das línguas românicas (originadas dos latins vulgares). Para entender essa relação de parentesco, basta pensar que sânscrito está para o latim e o grego, assim como o português está para o espanhol e o italiano. Dessa forma, o latim, o grego e o sânscrito são línguas consideradas como ramos paralelos provenientes de um mesmo tronco. Assim, da mesma forma que se observam os cognatos (palavras de mesma origem) nas línguas latinas, tais como livro (port.), libro (esp.), libro (it.) e livre (fr.), também se observam entre o latim, o grego e o sânscrito.
É em razão desse parentesco que vemos palavras que soam de maneira semelhante em sânscrito e em línguas modernas originadas a partir do grego e do latim. Por exemplo: yoga - jugum (lat.) > jugo (port.); tantra - tenere (lat.) > es-ten-der (port.); hṛd - cordis (lat.) > cor-ação (port.); daśa - decem (lat.) > dez (port.); manas - mens (lat.) > men-te (port.); entre muitas outras.

Sobre o sistema gramatical da língua sânscrita, confira as páginas destinadas a seu estudo.