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Conhecemos a Índia antiga graças, em grande parte, à língua sânscrita. Há um
conjunto numeroso de textos registrados nessa língua, com obras editadas,
traduzidas e difundidas em muitos países; além disso, há também milhares
de manuscritos ainda desconhecidos, arquivados em bibliotecas, apenas
catalogados ou mantidos sob a guarda de famílias que os transmitem
geração após geração.
Além de ser uma língua em que foram compostas obras fundamentais da
civilização indiana, o sânscrito é um símbolo cultural agregador e
assimilador, que possibilita uma compreensão dos princípios que participam
da origem, consolidação e permanência da tradição milenar da Índia.
Trata-se de uma língua que serviu de convenção para a propagação de
saberes dos mais diversos tipos, e, devido a possuir enorme prestígio,
estimulou a composição abundante de textos, o registro de diversas
áreas de conhecimento e a sua grande disseminação e transmissão.
Sabe-se da diversidade étnica e social da Índia, dos muitos dos grupos
que a habitam há milênios e de algumas das relações de influência estabelecidas
entre eles. É nesse sentido que o sânscrito, além de ser uma língua,
é uma instituição cultural, que foi capaz de modelar e fazer convergir
para sua literatura uma vasta gama de conhecimento que floresceu no
solo indiano. Muitos dos saberes que foram gerados em espaços regionais,
associados às línguas locais, foram registrados na língua sânscrita.
Ao serem registrados nessa língua, foram assimilados por uma cultura
que se convencionou chamar de cultura sânscrita, transmitida e alimentada,
ao longo de gerações, por pessoas que mantiveram seu estudo – como
primeira ou segunda língua – em vários níveis, dos mais utilitaristas
às esferas mais elevadas da erudição.
Aí reside um paradoxo: ao mesmo
tempo em que a literatura sânscrita traz uma pluralidade de conhecimentos,
ela registra esses
conhecimentos segundo valores que são próprios a ela e externos às
comunidades que os produziram, assimilando-os segundo seus princípios.
Tais princípios estão relacionados predominantemente à ideologia bramânica,
relativa ao grupo considerado, segundo a tipologia dos varṇa (termo
que é freqüentemente em português como casta), como hierarquicamente
superior aos outros.
É em razão de seu poder de assimilação que a literatura
sânscrita reflete um repertório de mais de três mil anos, capaz de
abranger um vasto leque de atividades humanas, mas que, de certa forma,
não reflete a pluralidade do pensamento e dos vários estratos que compõem
a civilização indiana. Reflete o pensamento daqueles que mantinham
o sânscrito como língua de cultura e que, por razões históricas, puderam
transmitir sua literatura ao longo de tantos séculos. Isso quer dizer
que há muitas formas de pensamento, ritual, mística, arte, literatura,
música que, sendo provenientes de comunidades falantes de outras línguas,
foram incorporados pela literatura sânscrita, mas somente segundo os
modelos cultivados por quem os registrou.
Nesse sentido, a cultura sânscrita
é um caleidoscópio que mostra as peças organizadas segundo a sua geometria,
isto é, segundo
seu modelo de interpretação do mundo. Em outras palavras, as obras
hoje conhecidas refletem um pensamento característico da maneira como
seus escritores/compositores (literatura escrita ou oral) concebiam,
ou achavam que deviam conceber, seu universo de atuação.
Isso não quer
dizer que haja homogeneidade absoluta nessa tradição; pelo contrário,
as classificações que se pretendem estáveis
tendem a ser falhas quando tratam de literatura. Mas há tendências
a serem observadas: nos períodos mais antigos, há vínculos mais estreitos
com o pensamento bramânico e, em períodos mais recentes, os vínculos
são mais frouxos, mas não deixam de existir. Dessa forma, a gradação
terá, em tese, duas extremidades: com os Vedas, no pólo mais antigo,
de pensamento bramânico e, no pólo mais recente, os tratados tântricos,
distanciados das concepções bramânicas.
Quanto a sua origem, considera-se
o sânscrito como uma língua pertencente à família das línguas indo-européias,
das quais
o grego e o latim representam as antigas mais conhecidas. A maioria
das línguas européias também pertence a essa família, incluindo o português,
o espanhol, o francês e o italiano, que são algumas das línguas românicas
(originadas dos latins vulgares). Para entender essa relação de parentesco,
basta pensar que sânscrito está para o latim e o grego, assim como
o português está para o espanhol e o italiano. Dessa forma, o latim,
o grego e o sânscrito são línguas consideradas como ramos paralelos
provenientes de um mesmo tronco. Assim, da mesma forma que se observam
os cognatos (palavras de mesma origem) nas línguas latinas, tais como
livro (port.), libro (esp.), libro (it.) e livre (fr.), também se observam
entre o latim, o grego e o sânscrito.
É em razão desse parentesco que
vemos palavras que soam de maneira semelhante em sânscrito e em línguas
modernas originadas
a partir do grego e do latim. Por exemplo: yoga - jugum (lat.) > jugo (port.); tantra - tenere (lat.) > es-ten-der (port.); hṛd - cordis (lat.) > cor-ação (port.); daśa - decem (lat.) > dez (port.); manas - mens (lat.) > men-te
(port.); entre muitas outras.
Sobre o sistema gramatical da língua sânscrita, confira as páginas destinadas a seu estudo.