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“Quinze versos de despertar” – Bodhapañcadaśikā

Traduzo aqui a obra atribuída a Abhinavagupta, dedicada a instruir com precisão e objetividade os discípulos iniciantes, que consiste de 15 versos – daí seu nome bodha-pañcadaśikā, “Quinze versos de despertar”. É uma síntese  iniciática do sistema filosófico do śivaiśmo monista da Caxemira, pelo qual se expõe a unidade pertinente à dualidade de śiva-śakti, que permeia toda a existência. Integram-se também os conceitos de prisão (bandha) e libertação (mokṣa) como aspectos externos à realidade mais sublime. Na realidade mais sublime, ou elevada, nomeada como śiva, não ha tal oposição. Dessa maneira, a meta a ser buscada é o ideal do jīvanmukta, que é a libertação em vida, uma condição que dispensa a oposição entre “liberto e não-liberto”.

Abhinavagupta fala-nos sobre a origem do universo. Aqui não existe a distinção convencional entre causa e efeito, a consciência divina gera e ao mesmo tempo é o universo. A metáfora do espelho é uma boa forma de entender esse fato: o mundo é reflexo do divino Bhairava. E sobre que superfície se dá o reflexo? Sobre o próprio Bhairava, por meio de sua potência, ou śakti.  Assim todos os princípios relacionados ao que chamamos de criação e dissolução são ações simultâneas e eternas da consciência divina, que está presente nos níveis mais sutis e mais densos da existência. Nos seus níveis mais sutis, Bhairava é inatingível pela consciência individual. A consciência individual não pode perceber Bhairava, pois ele está além dos objetos de percepção. É possível, porém, identificar-se com a consciência divina, isto é, tornar-se Bhairava.

Nos “Quinze versos de Despertar”, faz-se perceber que, existindo muitas criações,  muitos mundos, o apego à  dimensão restrita resulta no apequenamento da consciência. A cognição e também o prazer e a dor são inerentes ao estado de consciência restritivo.  Por oposição, a consciência pode ser proporcional à magnitude do universo, que se mostra múltiplo e fragmentário devido ao próprio intento de Śiva. Quem se apega apenas à dimensão restrita sofre as dores do medo – pois seu vir-a-ser estará limitado à visão projetdada pelo saṃsāra, que é a roda dos renascimentos sucessivos. No outro lado, estão a graça, o mestre e a escritura, como indutores da transformação da consciência, que poderá, enfim, notar-se maior, plena, idêntica à do ser divino. E, nesse estado, percebe-se então que não existem prisão ou libertação, visto que tudo é Śiva, todos somos Śiva, e Śiva nunca esteve preso ou liberto – ele é a totalidade. Surge daí o estado de “libertação em vida”, não há afastamento do mundo, visto que o mundo é o próprio corpo do ser divino.

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Tanto as luzes como as trevas são dotadas da natureza desse resplendor que não pode ser limitado, que é único, intrínseco, e em cujo interior estão tanto as luzes como as trevas. (1)

Ele é parameśvara, que é a essência de todos os seres, a origem deles e detentor da śakti, a qual é constituída por sua potência. (2)

E a śakti não concebe como distinto aquele que possui a śakti, de modo que um sempre será o cerne do outro, tal como o fogo e a combustão. (3)

Ele é o deus Bhairava, conhecido por manter o cosmo. Por meio de sua śakti, faz-se completamente refletido no espelho de si mesmo. (4)

Ele possui a deusa suprema, a qual deseja tocar a sua própria natureza. E, em todos os seres, ela manifesta sua plenitude, nem em falta, nem em excesso. (5)

Esse deus deseja permanentemente o sentimento de diversão, estabelecendo, onipresente, as variadas criações e dissoluções simultâneas. (6)

É dotado de um poder de ação inatingível, que está além de tudo, possuindo assim autonomia (svatantra), soberania e inteligência. (7)

A cognição limitada é o que caracteriza o ignorante, e a partir de um intelecto assim caracterizado, seja do ignorante ou de outros, não se pode alcançá-lo. (8)

Dessa forma, pertence ao princípio de autonomia (svatantra) o dualismo dos que experimentem a śakti como inata e também as criações e dissoluções, que ocorrem no próprio ser dele, mantidas por sua própria natureza. (9)

Dentre elas (criações), há uma variedade infindável, seja vertical ou horizontal. E uma parte delas são os mundos, os quais produzem o prazer, a dor e a cognição. (10)

O desconhecimento disso se explica em razão da autonomia (svātantrya) de Śiva. Trata-se de fato do saṃsāra, que traz o estado de temor aos tolos. (11)

Pela graça de Śiva, ou também pelo ensinamento do mestre ou pela escritura que versa sobre Parameśa, é alcançado o conhecimento da essência de Śiva, que se ensina como sendo a libertação (mokṣa), o estado de parameśa, a completude e a libertação em vida (jīvanmukti) dos sábios. (12-13)

A prisão e a libertação não se distinguem, provêm da essência da Parameśa, e tampouco há diferenciação com relação a vós, no estado de parameśvara. (14)

E assim Bhairava (Śiva) permanece como a natureza de todos os seres, dotado dos três lótus que figuram no tridente: a potência do desejo (icchā), a da atividade (kalā) e a do conhecimento (jñāna). (15)

“Para que os alunos de mente imatura aprendam com rapidez, esses quinze versos foram compostos por Abhinavagupta.”

* A tradução e o comentário de Swami Lakshman Joo, publicados em Self-Realization in Kashmir Shaivism, serviram de amparo para o entendimento do texto sânscrito. E tanto a versão sânscrita publicada nesse livro como a digitalizada por Marino Faliero serviram para minha leitura e estudo.

ॐ अनस्तमितभारूपस्तेजसां तमसामपि |
य एकोऽन्तर्यदन्तश्च तेजांसि च तमांसि च ||१||
oṃ anasta-mita-bhā-rūpas tejasāṃ tamasām api |
ya eko ‘ntar yad antaś ca tejāṃsi ca tamāṃsi ca ||1||

स एव सर्वभूतानां स्वभावः परमेश्वरः |
भावजातं हि तस्येव शक्तिरीश्वरतामयी ||२||
sa eva sarva-bhūtānāṃ svabhāvaḥ parameśvaraḥ |
bhāva-jātaṃ hi tasyeva śaktir īśvaratā-mayī ||2||

शक्तिश्च शक्तिमद्रूपाव्यतिरेकं न वाञ्छति |
तादात्म्यमनयोर्नित्यं वह्निदाहिकयोरिव ||३||
śaktiś ca śaktimad rūpāvyatirekaṃ na vāñchati |
tādātmyam anayor nityaṃ vahni-dāhikayor iva ||3||

स एव भैरवो देवो जगद्भरणलक्षणः |
स्वात्मादर्षे समग्रं हि यच्छक्त्या प्रतिबिम्बितम् ||४||
sa eva bhairavo devo jagad-bharaṇa-lakṣaṇaḥ |
svātmādarśe samagraṃ hi yacchaktyā pratibimbitam ||4||

तस्यैवैषा परा देवी स्वरूपामर्शनोत्सुका |
पूर्णत्वं सर्वभावेषु यस्या नाल्पं न चाधिकम् ||५||
tasyaivaiṣā parā devī svarūpāmarśanotsukā |
pūṛṇatvaṃ sarva-bhāveṣu yasyā nālpaṃ na cādhikam ||5||

एष देवोऽनया देव्या नित्यं क्रीडारसोत्सुकः |
विचित्रान्सृष्टिसंहारान्विधत्ते युगपद्विभु: ||६||
eṣa devo ‘nayā devyā nityaṃ kriḍā-rasotsukaḥ |
vicitrān sṛṣṭi-saṃhārān vidhatte yugapad vibhuḥ ||6||

अतिदुर्घटकारित्वमस्यानुत्तममेव यत् |
एतदेव स्वतन्त्रत्वमैश्वर्यं बोधरूपता ||७||
atidurghaṭakāritvam asyānuttamam eva yat |
etad eva svatantratvam aiśvaryaṃ bodha-rūpatā ||7||

परिच्छिन्नप्राकाशत्वं जडस्य किल लक्षणम् |
जडादिविलक्षणो बोधो यतो न परिमीयते ||८||
paricchinna-prākāśatvaṃ jaḍasya kila lakṣaṇam |
jaḍādi-vilakṣaṇo bodho yato na parimīyate ||8||

एवमस्य स्वतन्त्रस्य निजशक्त्युपभेदिनः |
स्वात्मगाः सृष्टिसंहाराः स्वरूपत्वेन संस्थिताः ||९||
evam asya svatantrasya nija-śakty-upabhedinaḥ |
svātmagāḥ sṛṣṭi-saṃhārāḥ svarūpatvena saṃsthitāḥ ||9||

तेषु वैचित्र्यमत्यन्तमूर्ध्वस्तिर्यगेव यत् |
भुवनानि तदंशश्च सुखदुःखमतिभवः ||१०||
teṣu vaicitryam atyantam ūrdhvas tiryag eva yat |
buvanāni tad-aṃśaś ca sukha-duḥkha-mati-bhavaḥ ||10||

यदेतस्यापरिज्ञानं तत्स्वातन्त्र्यं हि वर्णितम् |
स एव खलु संसारो जडानां यो विभीषकः ||११||
yad etasyāparijñānaṃ tat-svātantryaṃ hi varṇitam |
sa eva khalu saṃsāro jaḍānāṃ yo vibhīṣakaḥ ||11||

तत्प्रसादरसादेव गुर्वागमत एव वा |
शास्त्राद्वा परमेशस्य यस्मात्कस्मादुपागमतम् ||१२||
tat-prasāda-rasād eva gurvāgamata eva vā |
śāstrād vā parameśasya yasmāt kasmād upāgamatam ||12||

यत्तत्त्वस्य परिज्ञानं स मोक्षः परमेशता |
तत्पूर्णत्वं प्रबुधानां जीवन्मुक्तिश्च सा स्मृता ||१३|
yat tattvasya parijñānaṃ sa mokṣaḥ parameśatā |
tat-pūrṇatvaṃ prabudhānāṃ jīvanmuktiś ca sā smṛtā ||13||

एतौ बन्धविमोक्षौ च परमेशस्वरूपतः |
न भिद्येते न भेदो हि तत्त्वतः परमेश्वरे ||१४||
etau bandha-vimokṣau ca parameśa-svarūpataḥ |
na bhidyete na bhedo hi tat-tvataḥ parameśvare ||14||

इत्थमिच्छाकलाज्ञानशक्तिशूलाम्बुजाश्रितः |
भैरवः सर्वभावानां स्वभावः परिशील्यते ||१५||
ittham icchā-kalā-jñāna-śakti-śūlāmbujāśritaḥ |
bhairavaḥ sarva-bhāvānāṃ svabhāvaḥ pariśīlyate ||15||

सुकुमारमतीञ्शिष्यान्प्रबोधयितुमञ्जसा |
एमेऽभिनवगुप्तेन श्लोकाः पञ्चदशोदिताः ||
sukumāra-matīñ śiṣyān prabodhayitum añjasā |
eme ‘bhinavaguptena ślokāḥ pañcadaśoditāḥ ||

Hino da Criação (Ṛgveda, 10.129)

Hino da Criação (Ṛgveda, 10.129)

não era ente nem não-ente outrora
não era céu nem abóboda além
que abrigo abarcava o que?
que era densa água não penetrável?

nem morte nem não-morte naquele tempo
nem dia nem noite era aparição
auto-sustente respirava sem sopro o uno
além dele nenhum outro não era

era treva frente treva oculta
era água tudo irreconhecível
era vácuo coberto de vazio
de máximo calor nasceu o uno

sobre ele convergiu anseio
jorro primordial da mente
do não-ente ao ente um elo obtido
veementes empenharam no coração os sábios

entre eles tira horizontal estendida
o que abaixo era e o que acima era?
criadores eram e poderes eram
abaixo natureza e acima intenção

quem sabe que aqui pode anunciar?
como e onde acontecida criação
depois do fluxo primordial os deuses
quem soube o que existiu além?

se a criação surgiu ou não
e se não e ela foi criada
testemunha no alto céu
ele mesmo sabe ou não sabe?

 

Publicado originalmente em  Celebração do mito no Gītagovinda de Jayadeva – apresentação e tradução do poema sânscrito segundo sua relação com as narrativas épicas”, dissertação de mestrado, FFLCH-USP, 2004 [João Carlos Barbosa Gonçalves].

A dança de Śiva, na Īśvaragītā

Eis aqui o Śiva que dança a dança do universo, em tradução da Gītā shivaíta, conhecida na tradição como Īśvara-gītā:

Vyāsa disse:

Depois que falou com os yogues, o divino Parameśvara [senhor supremo] dançou, mostrando a forma sublime de sua grandiosa natureza. Eles viram o grande deus, o soberano, um imenso tesouro de luz, próximo a Viṣṇu, dançando no céu imaculado. Aqueles yogues, de mente controlada, conhecedores da essência do Yoga, realmente viram nos ares o senhor de todas as criaturas. Pelos sábios, o senhor de todas as criaturas foi visto dançando sobre si mesmo, já que é por meio dele que o mundo é construção de māyā, e por meio dele também o universo é posto em movimento. De fato, eles viram o senhor da vida, cujos pés possuem a beleza da flor de lótus, que, sendo rememorados em sua dança, removem o medo e a ignorância. Serenos, pacíficos, bons controladores do alento e inspirados pela devoção, todos testemunharam aquele a quem o adepto do Yoga chama de luminosidade. Eles viram o grandioso Rudra nos céus, o libertador, generoso com os devotos, que livra rapidamente da ignorância, o deus na aparição de mil cabeças, mil pés, mil braços, cabelos emaranhados e uma coroa em forma de meia lua, com as vestes de proteção feitas da pele do tigre. Na majestosa mão, o poder do tridente, na outra mão, um bastão, com três olhos, com o resplendor do Sol, da Lua e do Fogo. Eles viram o deus que é a causa de tudo, o soberano dançante, duro de mirar, com presas terríveis, com o brilho de milhares de sóis. Aquele que, por meio da própria luz, faz do ovo de Brahman tudo o que existe, e que, ao emitir o fogo tenebroso, queima completamente o mundo. Aquele que é o Yoga supremo, o deus dos deuses, o senhor dos animais, o soberano beatífico, a luz eterna. O deus do tridente, dos grandes olhos, a cura dos males da vida, que é a essência do tempo, o destruidor do tempo, o grande soberano, o deus dos deuses. O esposo de Umā, com o grande olho, a suprema manifestação do êxtase do Yoga. A fonte do Yoga e do desprendimento, o eterno Yoga do saber. A imponência e a dádiva perpétuas, o alicerce do dharma, de alcance remoto, que é reverenciado por Mahendra [Indra] e Upendra [Viṣṇu], que é louvado pelas hostes dos grandes inspirados. Aquele que reside no coração dos yogues, que está envolvido igualmente pela māyā e pelo Yoga. Por um instante, aqueles que ensinam brahman viram a matriz do mundo, Nārāyaṇa [homem primordial], aquele que traz a saúde. E assim presenciaram a forma do soberano, aquele que é o próprio Nārāyaṇa. E aqueles sábios que ensinam brahman contemplaram em si o próprio ātman na mais completa realização. Sanatkumāra, Sanaka, Bhṛgu, também Sanātana e Sanandana; assim como Raibhya, Aṅgiras e Vāmadeva; Śukra, o grande inspirado Ratri, Kapila e Mārīci, ao verem Rudra, o maior soberano do universo, com o lado esquerdo habitado pelo deus que tem o lótus no umbigo [Viṣṇu], meditaram em sua presença dentro do coração, várias vezes fizeram reverência com a cabeça e com as palmas das mãos unidas sobre a testa. E, pronunciando a sílaba Oṃ, contemplaram o deus instaurado em seus âmagos, no coração. Com a consciência preenchida pela mais elevada satisfação, o adoraram com os dizeres inspirados por brahman.

 

Disseram os sábios:

Tu, que és o único soberano, o homem dos primórdios, o senhor dos alentos [prāṇa], Rudra, que transmite o Yoga eterno, a ti reverenciamos nós todos, em nosso coração, és Pracetas, és o purificador, és formado de brahman. Os sábios que, pacificados e abrandados, ao terem meditado sobre o ātman imutável dentro de seus próprios corpos, e perceberam a ti como a pura matriz de brahman, de cor radiante, o consideram como o mais inspirado dos mais inspirados, e muito além de tudo isso. A partir de ti, a origem do mundo foi gerada, tu és o âmago do universo, és o átomo, menor do que o menor e maior do que o maior – assim é que os sabedores declaram a ti como brahman. O feto dourado [hiraṇyagarbha] é derivado de ti, és o ātman essencial do mundo, nasceste como o homem primordial. Tudo o que foi criado, o foi junto de ti, de acordo com teu desígnio. Todos os Vedas são criados por ti e, ao final, são tomados também por ti. Nós o vemos dançando, a razão de ser do mundo, e, em nossos próprios corações, estás habitando. Por ti, essa roda de brahman gira, tu que és feito de māyā, és o único senhor dos mundos. Nós o reverenciamos como protetor, és o ātman do Yoga enquanto danças como dançarino divino. A ti, nós contemplamos dançando em meio aos céus elevados! De tua índole grandiosa nós nos recordamos! És o ātman de todos, estás presente em tudo! És o gozo de brahman, que é sempre vivenciado! És a sílaba Oṃ, o som semente [bīja] da libertação, eterno, guardado no mundo material [prakṛti]. Aqui os sábios proclamam o Senhor, que irradia com luz própria, como a realidade por excelência. (…)

 

Vyāsa disse:

Assim propiciado, o divino Kapardin, que monta o búfalo, tomou sua forma suprema e assumiu seu estado original.

 

Kūrmapurāṇa (2.5.1-28, 42)

vyāsa uvāca
etāvaduktvā bhagavān yogināṃ parameśvaraḥ /
nanarta paramaṃ bhāvamaiśvaraṃ saṃpradarśayan // 1 //
taṃ te dadṛśurīśānaṃ tejasāṃ paramaṃ nidhim /
nṛtyamānaṃ mahādevaṃ viṣṇunā gagane ‘male // 2 //
yaṃ viduryogatattvajñā yogino yatamānasāḥ /
tamīśaṃ sarvabhūtānāmākaśe dadṛśuḥ kila // 3 //
yasya māyāmayaṃ sarvaṃ yenedaṃ preryate jagat /
nṛtyamānaḥ svayaṃ viprairviśveśaḥ khalu dṛśyate // 4 //
yat pādapaṅkajaṃ smṛtvā puruṣo ‘jñānajaṃ bhayam /
jahati nṛtyamānaṃ taṃ bhūteśaṃ dadṛśuḥ kila // 5 //
yaṃ vinidrā jitaśvāsāḥ śāntā bhaktisamanvitāḥ /
jyotirmayaṃ prapaśyanti sa yogī dṛśyate kila // 6 //
yo ‘jñānānmocayet kṣipraṃ prasanno bhaktavatsalaḥ /
tameva mocakaṃ rudramākāśe dadṛśuḥ param // 7 //
sahasraśirasaṃ devaṃ sahasracaraṇākṛtim /
sahasrabāhuṃ jaṭilaṃ candrārdhakṛtaśekharam // 8 //
vasānaṃ carma vaiyāghraṃ śūlāsaktamahākaram /
daṇḍapāṇiṃ trayīnetraṃ sūryasomāgnilocanam // 9 //
brahmāṇḍaṃ tejasā svena sarvamāvṛtya ca sthitam /
daṃṣṭrākarālaṃ durdharṣaṃ sūryakoṭisamaprabham // 10 //
aṇḍasthaṃ cāṇḍabāhyasthaṃ bāhyamabhyantaraṃ param /
sṛjantamanalajvālaṃ dahantamakhilaṃ jagat /
nṛtyantaṃ dadṛśurdevaṃ viśvakarmāṇamīśvaram // 11 //
(…)
munaya ūcuḥ
tvāmekamīśaṃ puruṣaṃ purāṇaṃ
prāṇeśvaraṃ rudramanantayogam /
namāma sarve hṛdi sanniviṣṭaṃ
pracetasaṃ brahmamayaṃ pavitram // 22 //
tvāṃ paśyanti munayo brahmayoniṃ
dāntāḥ śāntā vimalaṃ rukmavarṇam /
dhyātvātmasthamacalaṃ sve śarīre
kaviṃ parebhyaḥ paramaṃ tatparaṃ ca // 23 //
tvattaḥ prasūtā jagataḥ prasūtiḥ
sarvātmabhūstvaṃ paramāṇubhūtaḥ /
aṇoraṇīyān mahato mahīyāṃ-
stvāmeva sarvaṃ pravadanti santaḥ // 24 //
hiraṇyagarbho jagadantarātmā
tvatto ‘dhijātaḥ puruṣaḥ purāṇaḥ /
saṃjāyamāno bhavatā visṛṣṭo
yathāvidhānaṃ sakalaṃ sasarja // 25 //
tvatto vedāḥ sakalāḥ saṃprasūtā-
stvayyevānte saṃsthitiṃ te labhante /
paśyāmastvāṃ jagato hetubhūtaṃ
nṛtyantaṃ sve hṛdaye sanniviṣṭam // 26 //
tvayaivedaṃ bhrāmyate brahmacakraṃ
māyāvī tvaṃ jagatāmekanāthaḥ /
namāmastvāṃ śaraṇaṃ saṃprapannā
yogātmānaṃ citpatiṃ divyanṛtyam // 27 //
namo bhavāyāstu bhavodbhavāya
kālāya sarvāya harāya tumyam /
(…)
tataḥ sa bhagavān devaḥ kaparde vṛṣavāhanaḥ /
saṃhṛtya paramaṃ rūpaṃ prakṛtistho ‘bhavad bhavaḥ // 42 //

A dança de Kṛṣṇa com as pastoras no Viṣṇu-purāṇa

Tradução de João Carlos Barbosa Gonçalves, In “Celebração do mito no Gītagovinda de Jayadeva – apresentação e tradução do poema sânscrito segundo sua relação com as narrativas épicas”, dissertação de mestrado, FFLCH-USP, 2004. (Viṣṇupurāṇa – livro 5, cap. 13)

Ao terem visto a montanha Govardhana1, sustentada por ele, depois que Śakra2 partiu, os pastores falaram alegremente a Kṛṣṇa, agente infatigável: (1)
– Ó moço de grandes-braços, pelo senhor, com o feito de levantar do monte, fomos protegidos daquele grande perigo, e foi também nosso gado protegido pelo senhor. (2) Essa brincadeira de criança é desmedida, tua condição como pastor é intolerável, o ato do senhor é divino. Conta o que és, menino. (3) Kāliya foi subjugado na água; Pralamba3, derrotado; o Govardhana foi erguido: nossas mentes estão relutantes. (4) Verdadeiramente suplicamos aos pés de Hari, ó tu que tens passos incomensuráveis. Desde que presenciamos tua potência, não o consideramos mais como um homem. (5) Presenciamos também teu afeto por Vraja4, pelas mulheres, pelas crianças, ó Keśava5. Conseguiste realizar uma façanha, que semelhante nem mesmo pelos trinta deuses. (6) Quando se concebe tua infantilidade e tua força, com origem semelhante à nossa, ó Kṛṣṇa, ātman infinito, isso traz perplexidade. (7) Deus, demônio, yakṣa ou gandharva6. O que isso importa se és nosso amigo? Louvor a ti! (8)
Grande sábio, tendo os pastores dito isto, Kṛṣṇa ficou quieto por um instante, um pouco magoado, mas disse então: (9)
– Ó Pastores, se não causa vexame minha amizade, se sou louvável, qual o motivo para vossa inquietação? (10) Se tendes afeto por mim, se vos sou louvável, que vossa mente me compreenda como parente. (11) Não sou deus, nem demônio, nem gandharva ou yakṣa: sou nascido vosso parente e não há porque pensar de outra forma! (12)
Ó bem aventurado, assim ouvindo a fala de Hari, enquanto ele estava zangado, os pastores foram silenciosos de lá para a floresta. (13) Kṛṣṇa, vendo o céu imaculado, o resplendor da Lua de outono, os lótus abertos que perfumam o ar (14) e as encantadoras guirlandas com abelhas zunindo que enfeitam a floresta, decidiu desfrutar junto das pastoras. (15) Junto de Rāma7, Śauri8 cantou versos muito melodiosos, amáveis para as mulheres, em harmonia com o tantrin9 tocado de muitos modos. (16) Ao ouvirem o som encantador das canções, as pastoras deixaram suas moradas e foram depressa para onde o Algoz-de-Madhu estava. (17) Uma pastora cantou suavemente em harmonia com a música; outra, atenta, acompanhou mentalmente. (18) Veio uma timidamente dizendo “Kṛṣṇa! Kṛṣṇa!”; veio outra, cega de amor, tocar nele sem timidez. (19) Outra, vendo o venerável do lado de fora, ficou dentro de casa, e meditou sobre Govinda com olhos cerrados, em absorção completa nele. (20) Reduzindo o efeito dos atos auspiciosos com a alegria suprema da mente projetada nele e com cômputo dos feitos de transgressão totalmente dissolvido pela dor de não encontrá-lo, outra pastora, retendo o alento, atingiu a libertação pensando no criador do mundo, que é a forma do brahman supremo (parabrahma). (21-22) Cercado pelas pastoras, Govinda, com desejo de iniciar a dança rāsa, foi reverenciar a noite, encantadora com o luar de outono. (23) E foram grupos de pastoras, com os corpos absortos nos gestos de Kṛṣṇa, para outro local na floresta de Vṛndā onde ele tinha ido. (24) Com o coração pleno de Kṛṣṇa, assim disseram uma a outra: “Sou Kṛṣṇa, vejam meus passos, eu ando graciosamente”; outra diz “escutem minha canção, é de Kṛṣṇa.” (25) “Pare Kāliya!”, disse uma outra, “Eu sou Kṛṣṇa!”, movendo o braço para lutar, como no gesto de Krṣṇa. (26) Outra diz, “Ó Pastores! fiquem tranqūilos, não há perigo com as chuvas, eu levanto o Govardhana.” (27) “Que o gado ande à vontade, eu matei Dhenuka10”, diz outra imitando os trejeitos de Kṛṣṇa. (28) Assim ficaram as pastoras, prazerosamente distraídas nos gestos variados de Kṛṣṇa, brincando na floresta de Vṛndā. (29)
Olhando para o chão, uma delas, uma bela pastora, com o corpo curvado, arrepiada, com os olhos de lótus luminosos, disse: (30) Vejam esses passos de Kṛṣṇa, que passeia graciosamente adornado e deixa uma linha marcada com o gancho, a concha, o raio e o estandarte. (31) Alguma mulher de feitos auspiciosos, cujas marcas dos pés pequenos estão próximas dos dele, veio enternecida pela atração por ele. (32) Aqui decerto Dāmodara11 colheu flores na parte alta já que só há uma pequena porção na frente das pegadas do magnânimo. (33) Ela sentou aqui e foi enfeitada com flores por ele – Viṣṇu, reverenciado por ela na forma universal em algum outro nascimento. (34) Vejam: ele a deixou, muito altiva por ter sido agraciada com o arranjo de flores, e se foi por esse caminho. (35) Uma outra, incapaz de acompanhá-lo, indolente com o peso das ancas, foi rapidamente nas pontas dos pés para o seu encontro. (36) A amiga vai junto dele com os dedos seguros em sua mão e as pegadas mostram as marcas dos pés distanciados. (37) Desconsiderada pelo pouco contato da mão dele – de gesto enganador – os pés dela estão marcados em meia-volta, que retorna, desiludida e vagarosa. (38) Decerto Kṛṣṇa disse a ela “vou depressa” e “depois procuro você”, pois que as marcas dos passos estão apressadas. (39) Kṛṣṇa entrou na floresta densa, aqui os passos não aparecem mais. Voltem, já que este lugar não tem a claridade do luar. (40)
Sem esperança de ver Kṛṣṇa, as pastoras retornaram, foram à orla do rio Yamunā e lá cantaram seus feitos. (41) Então as pastoras viram a ele que vinha, com a boca que é como um lótus radiante, o protetor dos três mundos, o agente infatigável. (42) Uma viu Govinda que vinha e, muito oriçada, disse “Kṛṣṇa, Kṛṣṇa, Kṛṣṇa”, sem poder dizer algo mais. (43) Outra, marcando a fronte com a sobrancelha arqueada, olhou para Hari e, com as abelhas de seus olhos, bebeu no lótus da boca dele. (44) E mais outra, olhando Govinda com os olhos semicerrados, contemplando o corpo dele, mostrou-se absorvida em meditação. (45) Então Mādhava agradou a umas com falas amorosas, a outras com um olhar cativante, e a outras mais com o toque das mãos. (46)
Hari, de feitos sublimes, foi desfrutar da dança rāsa junto das pastoras, cujas mentes estavam agraciadas, mas a formação da roda do rāsa não pôde ser feita porque cada pastora quis ficar num único lugar, não pretendendo sair do lado de Kṛṣṇa. (47-48) Hari foi tomando a mão de uma por uma e formou o círculo do rāsa, com as pastoras de olhos cerrados pelo toque das mãos. (49) Então a dança iniciou com o toque dos braceletes em movimento, seguida da música com o canto dos versos dedicados ao outono. (50) Kṛṣṇa cantou em homenagem à Lua de Outono, ao luar, à flor de lótus, mas as pastoras, apenas uma única coisa muitas vezes: o nome de Kṛṣṇa. (51) Uma delas, envolvida na dança, pôs o braço, feito uma liana tinindo com as pulseiras palpitando, no ombro do Algoz-de-Madhu. (52) Outra pastora, artificiosamente versada nos cantos de louvor, de braços exuberantes, abraçou e beijou o Matador-de-Madhu. (53) Os braços de Hari, movendo-se para tocar o rosto das pastoras e para serem louvados, suspensos, com arrepios, ficaram tomados pela transpiração. (54) Enquanto Kṛṣṇa cantava muito alto uma música para a dança, elas cantavam duas vezes mais alto: “Kṛṣṇa, Kṛṣṇa é o Supremo!”. (55) Indo e voltando na roda, ficavam face-a-face: para um lado e para o outro, as belas pastoras amaram Hari. (56) Enquanto o Algoz-de-Madhu gozava junto às pastoras, cada instante sem ele foi considerado como milhões de anos. (57) As amadas pastoras, ainda que impedidas pelos maridos, pais e irmãos, deleitaram Kṛṣṇa durante a noite. (58)
O Matador-de-Madhu, o removedor de males, de essência incomensurável, concebido como um jovem rapaz gozou junto a elas por noites. (59) Ele é o Soberano cuja forma é a essência das essências, que reside em tudo, permeando todos os seres, os maridos delas e elas. (60) Assim como o éter, o fogo, a terra, a água e o ar estão presentes em todas as coisas, ele é a essência que a tudo permeia. (61)

NOTAS

1. Conta o capítulo anterior que Kṛṣṇa protegeu os pastores contra a fúria de Indra, que mandou chuvas destruidoras sobre os pastos de Gokula. Kṛṣṇa os salvou a todos levantando sobre seu braço o monte Govardhana e assim cobriu o povo e o animais das águas mandadas contra eles. A ira de Indra foi provocada por Kṛṣṇa, que convenceu os pastores que não o venerassem, e sim a montanha, já que esta é quem sustenta o gado e os pastores, e não o deus, que com as chuvas, sustenta a plantação e os agricultores.
2. Nome de Indra.
3. Nomes de demônios derrotados por Kṛṣṇa.
4. Nome da aldeia em que habitam os pastores.
5. Nome de Kṛṣṇa relativo ao episódio em que matou o demônio de nome Keśin.
6. Variedades de seres sobrenaturais.
7. Nome do irmão de Kṛṣṇa, Balarāma.
8. Patronímico de Krṣṇa.
9. Instrumento musical com três cordas.
10. Nome de um demônio derrotado por Kṛṣṇa.
11. “Cingido-na-cintura”, nome de Kṛṣṇa.