A presença do indivíduo no Sāṃkhya (guṇa e ahaṁkāra)

Uma teoria do conhecimento tem a finalidade de produzir um método de observação da nossa própria capacidade de observação. Discute-se quais são os limites possíveis do conhecimento humano. A consciência limitada pela individualidade teria capacidade para conceber o absoluto? A filosofia do sāṁkhya propõe um caminho metódico para que se organize todas as formas pelas quais a totalidade da existência se manifesta. Nessa forma de agrupamento, as realidades do sujeito que apreende e a realidade dos objetos que são apreendidos são entendidas como manifestações simétricas, como formas espelhadas que foram desencadeadas por um mesmo processo. Enquanto teoria do conhecimento, o sāṁkhya entende que a mente – o aparelho cognitivo convencional – é incapaz de apreender integralmente a dinâmica da existência do cosmo do qual faz parte, pois compartilha da mesma substância – ainda que em intensidade diferente – dos elementos pertencentes ao que chamamos de mundo material (nesse sentido, é que surge o pressuposto do yoga de que é necessário desvencilhar-se da mente ordinária para que algo a mais se manifeste). Vejamos, na passagem a seguir, uma descrição das três categorias (guṇa) que modulam cada uma das formas que permitem que as individualidades subjetivas se relacionem com as formas objetivas.

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O Ensinamento de Kapila  (Kapilopadeśa 2.24-31)
A partir do elemento mahat, originado no vigor do Venerável, o ahaṁkāra – como uma potência de ação (kriyāśakti) – desdobrou-se triplamente: como vaikārika (mutável), como taijasa (ardente) e como tāmasa (obscuro), que são origem do manas (mente), dos indriya (comandos/sentidos) e dos mahābhūta (elementos grandes). Ele é conhecido como Saṁkarṣaṇa, ou puruṣa composto pela mente, sentidos e elementos, considerado o infinito (ananta), que é presenciado com mil cabeças. A qualificação do ahaṁkṛti é a agência (kartṛtva), a instrumentalidade (karaṇatva) e a objetividade (kāryatva), ou as qualidades de ser pacífico (śānta), terrível (ghora) e insensível (vimūḍha). Do vaikārika, quando este se desdobra, o elemento manas foi gerado, do qual se origina o estado de desejo, a partir do vikalpa (concepção fragmentária) e do saṁkalpa (concepção integral). Ele [manas] é conhecido como Aniruddha (indomável) e, lembrando um lótus escuro outonal, é pouco-a-pouco apaziguado pelos yogues. Do taijasa, quando este se desdobra, o elemento buddhi surgiu, como um reconhecimento para aparição das coisas, isto é, uma ajuda para os sentidos, ó virtuosa! “A dúvida, o engano, a convicção, a memória, o sono” são considerados como qualificação da buddhi, de acordo com suas funções. Os sentidos taijasa são distribuídos como ação (kriya) e concepção (jñāna), a potência da ação é a do prāṇa e a potência do reconhecimento é a da buddhi.

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vaikārikas taijasaś ca tāmasaś ca yato bhavaḥ |

manasaś cendriyāṇāṃ ca bhūtānāṃ mahatām api ||24|
sahasraśirasaṃ sākṣād yam anantaṃ pracakṣate |
saṅkarṣaṇākhyaṃ puruṣaṃ bhūtendriyamanomayam ||25||
kartṛtvaṃ karaṇatvaṃ ca kāryatvaṃ ceti lakṣaṇam |
śāntaghoravimūḍhatvam iti vā syād ahaṅkṛteḥ ||26||
vaikārikād vikurvāṇān manastattvam ajāyata |
yatsaṅkalpavikalpābhyāṃ vartate kāmasambhavaḥ ||27||
yad vidur hy aniruddhākhyaṃ hṛṣīkāṇām adhīśvaram |
śāradendīvaraśyāmaṃ saṃrādhyaṃ yogibhiḥ śanaiḥ ||28||
taijasāt tu vikurvāṇād buddhitattvam abhūt sati |
dravyasphuraṇavijñānam indriyāṇām anugrahaḥ ||29||
saṃśayo ‘tha viparyāso niścayaḥ smṛtir eva ca |
svāpa ity ucyate buddher lakṣaṇaṃ vṛttitaḥ pṛthak ||30||
taijasānīndriyāṇy eva kriyājñānavibhāgaśaḥ |
prāṇasya hi kriyāśaktir buddher vijñānaśaktitā ||31||

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