O princípio dual do cosmo (puruṣa e prakṛti)

O texto a seguir é uma descrição recente do sistema de conhecimento (darśana) conhecido como Sāṁkhya. Trata-se de um texto nomeado como Kapila-upadeśa, ou “Ensinamento de Kapila”, que é a quem se atribui a fundação dessa escola filosófica, que teve início antes da Era Cristã. Essa obra consiste de 9 capítulos que foram transmitidos junto à coletânea purânica conhecida como Bhāgavata, datada de cerca de XII d.C.

Segundo a concepção desse tratado, que não é a visão “clássica” do Sāṁkhya, puruṣa, que é entendido como a consciência divina, aproxima-se ludicamente da prakṛti e perde a consciência de sua própria natureza. O conjunto das observações cosmológicas presentes nesse tratado pressupõem um rico universo simbólico e mitológico que nos induzem a interessantes reflexões acerca dos metas propostas pelas várias tradições do yoga e das práticas por elas envolvidas.

Do ponto de vista da relação entre as escolas filosóficas, é interessante notar também que as concepções do Sāṁkhya presentes nessa obra trazem alguma influência do tantrismo. No tantrismo, os elementos, ou “tattvas”, são computados como 36 ao todo, enquanto que, no Sāṁkhya, eles somam 25. Mais do que uma divergência numérica, as diferenças estão situadas no valor, positivo ou negativo, dado aos tattvas. Enquanto que, no Sāṁkhya antigo, os tattvas identificados com a prakṛti são entendidos como alheios ao divino, no tantrismo, esses mesmos tattvas, identificados com a śakti, constituem uma manifestação do divino. Na visão do Kapilopadeśa, por vezes, os tattvas são entendidos de uma forma e, por vezes, de outra forma. Eis o início do segundo capítulo dessa obra:

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Kapilopadeśa
atha te sampravakṣyāmi tattvānāṁ lakṣaṇaṁ pṛthak | yad viditvā vimucyeta puruṣaḥ prākṛtair guṇaiḥ ||1|| jñānaṁ niḥśreyasārthāya puruṣasyātmadarśanam | yad āhur varṇaye tat te hṛdayagranthibhedanam ||2|| anādir ātmā puruṣo nirguṇa prakṛteḥ paraḥ | pratyagdhāmā svayaṁ jyotir viśvaṁ yena samanvitam ||3|| sa eṣa prakṛtiṁ sūkṣmāṁ daivīṁ guṇamayīṁ vibhuḥ | yadṛchayaivopagatām abhyapadyata līlayā ||4|| guṇair vicitrāḥ sṛjatīṁ sarūpāḥ prakṛtiṁ prajāḥ | vilokya mumuhe sadyaḥ sa iha jṇānagūhayā ||5|| evaṁ parābhidhyānena kartṛtvaṁ prakṛteḥ pumān | karmasu kriyamāṇeṣu guṇair ātmani manyate ||6|| tad asya saṁsṛtir bandhaḥ pāratantryaṁ ca tatkṛtam | bhavaty akartur īśasya sākṣiṇo nirvṛtātmanaḥ ||7|| kāryakāraṇakartṛtve kāraṇaṁ prakṛtiṁ viduḥ | bhoktṛtve sukhaduḥkhānāṁ puruṣaṁ prakṛteḥ param ||8||

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O Ensinamento de Kapila

Agora, descreverei para ti a conformação dos elementos (tattva) em detalhes. O ser (puruṣa), ao reconhecer isso, há de libertar-se. Explicarei para ti o conhecimento que dizem que rompe os nós do coração, que revela a essência (ātman) do ser (puruṣa) e que conduz ao supremo. A essência incriada é o ser, livre de qualidades (guṇa) e superior à materialidade (prakṛti). O mundo todo é conduzido por ele, que está dentro de tudo, com luminosidade própria. O onipresente (vibhu) aproximou-se ludicamente da materialidade sutil, divina e dotada de qualidades, que o recebeu casualmente. Ele, ao vislumbrar a materialidade geratriz, iludiu-se imediatamente com as qualidades (guṇa), tendo sua sabedoria velada, passando a existir como as inúmeras formas de criaturas neste mundo. Dessa forma, o ser (pumān), desejando seu outro, atribui a si mesmo a qualidade de agente, que pertence à materialidade, enquanto decorrem as ações das qualidades. Por isso, ele, que é inativo, potente, perceptivo e auto-suficiente, dota-se da criação, restrição, dependência e objetividade. Entende-se a materialidade como o princípio no âmbito do agente, da causa e da ação; e entende-se o ser, que é diferente da materialidade, como o princípio no estado de apreciação, relativo ao prazer e à dor.

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